segunda-feira, dezembro 12, 2005

Autos de natal nas ruas do Recife

A programação de Natal no Recife já começou. Nesse ano, além dos tradicionais shows, se apresentam nas ruas da cidade diversos grupos de dança e teatro. São autos de natal e apresentações de folguedos como cavalo-marinho, bumba-meu-boi, pastoril, caboclinho, maracatu e coco, nos pólos de animação espalhados pelos quatro cantos do Recife: Marco Zero, Praça do Arsenal, Pátio de São Pedro, Sítio da Trindade, Brasília Teimosa e Ibura. Entre as principais atrações, está o espetáculo da cia Teatral Arricirco, que encenará o mistério do nascimento de Jesus, com 20 atores em pernas de pau, no dia 22, no Marco Zero. No mesmo local, dias 23, 24 e 25, haverá a apresentação do Baile do Menino Deus. Na véspera do Natal, mestres da cultura popular se encontram, entre eles o Mestre Nelson, homenageado do Natal, e Mestre Salustiano.

domingo, dezembro 11, 2005

Concurso nacional de monografias sobre teatro


Para incentivar a produção de estudos críticos sobre teatro, a Prefeitura de Porto Alegre está promovendo o Prêmio Gerd Bornheim, que irá conceder prêmios em dinheiro e publicar um livro com os três melhores ensaios nas categorias Teatro no Brasil e Teatro no Rio Grande do Sul. As inscrições para o Concurso Nacional de Monografias é até 10 de fevereiro de 2006. A divulgação do resultado sai em 1º de junho. A comissão julgadora é formada por Eliane Lisbôa, Fernando Peixoto e Luís Augusto Fischer (para trabalhos sobre teatro no Brasil) e Antônio Hohlfeldt, José Ronaldo Faleiro e Marta Isaacsson (para o teatro gaúcho).

O regulamento completo pode ser obtido no link abaixo:
http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smc/default.php?reg=5&p_secao=141

sábado, dezembro 10, 2005

Em Cena Arte e Cidadania grava CD e DVD (PE)

O grupo Em Cena Arte e Cidadania fez uma releitura do Quebra-Nozes, um clássico repertório do período natalino. O quebra-nozes no reino do meio-dia é encenado por um corpo de 22 bailarinos. Todos crianças e adolescentes, com idade entre 8 e 18 anos, ligados à ONG Em Cena. O espetáculo, que esteve em cartaz no Recife durante dois meses, foi gravado em CD e DVD.

A coreografia elaborada por Maria Paula Costa Rêgo, do Grupo Grial de Dança, é fruto de uma pesquisa feita com danças populares. Esses elementos dão uma nova roupagem ao original de Lev Ivanov. Em vez da viagem ao reino da Fada Açucarada, nessa versão a personagem faz uma viagem pelas tradições da cultura regional pernambucana. O DVD tem 1h10 de duração e o CD contém oito faixas, alternando faixas instrumentais com a narração da história. Custam, respectivamente, R$ 15 e R$ 5 e estão à venda na sede da ONG Em Cena. Mais Informações: (81) 3423. 6044

Roberto Pereira lança livro Eros Volusia (RJ)


Roberto Pereira, crítico de dança e coordenador do curso de dança da UniverCidade, no Rio de janeiro, está lançando o livro Eros Volusia, na próxima quarta-feira (14/12), às 19h30, no Mezanino do Planetário (Rua Vice-Governador Rubens Bernardo, 100, Gávea). O livro foi publicado pela Editora Relume Dumará e recebeu o apoio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Mais informações: (21) 2274.0046.

Danças Brasileiras no Canal Futura

Desde do dia 23 de novembro, o Canal Futura vem exibindo a segunda fase de "Danças Brasileiras". Trata-se de uma série de programas sobre as origens e características da dança popular brasileira, apresentada pelo músico, dançarino e instrumentista Antônio Nóbrega e por sua esposa, a dançarina Rosani Almeida. O casal viaja pelo Brasil mostrando a criação da linguagem coreográfica de cada dança e seu processo de sistematização, utilizando como base os gestos e movimentos presentes nos ritmos tradicionais de cada região do País. O Candomblé do Pai Leopoldo (BA), Coco Alagoano de Dona Ilda (AL), Tropeiros da Tradição (RS), Moçambique de São Bento de Beira Rio (SP) são alguns dos grupos apresentados pelo programa.

Entrevista com Antônio Cadengue (PE)

Qual ator pernambucano não gostaria de trabalhar com Antônio Cadengue? Diretor da Companhia Teatro de Seraphim, que neste ano completou quinze anos de atividades, Cadengue, 51 anos, é um dos encenadores de destaque no cenário do teatro nacional. Em quase trinta anos de trabalho, tem em seu currículo mais de quarenta montagens. Mas o teatro entrou quase que por acaso em sua vida. O primeiro contato com a arte do tablado foi através de uma prima e uma tia que faziam teatro amador em Lajedo, interior de Pernambuco. No entanto, não foi daí que surgiu o seu interesse. As suas atividades como diretor de teatro começaram aos 21 anos, na época em que era estudante universitário de psicologia, em 1975. Como não tinha mais dinheiro para bancar a graduação, propôs dar aulas de teatro para uma escola secundária pertencente à faculdade. Até aquele momento, só conhecia teatro como espectador e através de um único livro teórico: Em busca do teatro pobre. As peças feitas na faculdade e na escola ganharam repercussão. Assim, José Mário Austregésilo o convidou para substituí-lo nas aulas de teatro, nas turmas de jornalismo da Universidade Católica. Cadengue ensinou lá durante três anos. Foi convidado para fazer pós-graduações em teatro em várias instituições do país, terminando o seu doutorado em 91, na USP. Professor da UFPE desde 81, foi um dos coordenadores do antigo Curso de Formação de Atores. Veja a seguir entrevista concedida a mim para o caderno Guia de Profissões (publicada no Diário de Pernambuco, em 05/12/2005). Cadengue falou sobre a formação da Companhia Teatro de Seraphim (e não Companhia de Teatro Seraphim, como costuma corrigir) e a condição do ator em Pernambuco.

Como foram esses quinze anos da Cia Teatro de Seraphim?
A companhia começou em 90, com a montagem de Heliogábalo e eu, com a direção de George Moura. Na época, eu estava montando com os alunos do curso de atores da Fundação Joaquim Nabuco, Em nome do desejo, que depois seria integrada à Cia Teatro de Seraphim devido à repercussão da peça. O nome da companhia está ligado ao autor dos textos desses dois espetáculos, que é o Trevisan. Além disso, Heliogábalo é baseado no pensamento de Artaud. E por isso colocamos Companhia Teatro de Seraphim, nome de um texto de Artaud. O nome funcionou. Esse tempo todo o que uniu o grupo foi o espírito de trazer boas produções para o Recife. Fazíamos quase três peças por ano. Mas desde 2000, ficou muito difícil montar um espetáculo.

O bom ator é aquele que tem experiência?
Um bom ator, de uma forma geral, é aquele que tem um bom preparo vocal, corporal, de dança, além de um domínio das técnicas de base da interpretação. Mas nós temos procurado investir em um corpo de atores formados por veteranos e por jovens também. É bom misturar porque as pessoas crescem. O bom para mim é aquele que tenha disponibilidade para aprender e se tornar um bom profissional.
E o talento?
Eu tenho dúvidas quanto aos talentos. Acho que os talentos existem, mas se ele não for trabalhado, se as pessoas não se lançarem na ousadia e na aventura da experimentação, ele fracassa. Tem que investir na formação. E essa formação é um pouco de tudo. É através do cinema, dos livros... Porque os atores são seres que devem destinar boa parte da sua sensibilidade para ser reeducado. Às vezes, a pessoa não tem o talento, mas sabe canalizar o seu potencial. O teatro não precisa só de gente brilhante. Ele é feito por pessoas comuns. Imagine se existisse uma Fernanda Montenegro em cada canto do país? Ela se torna uma paradigma para todo mundo, mas não é para mim o melhor tipo de artista. Gosto de pessoas que tenham sensibilidade para chorar com a chegada das estrelas... Essas coisas simples da vida.
Como você avalia a questão da formação do ator? Ele precisa de um bom curso de teatro?
Eu sou um caso muito especial porque nunca estudei teatro na minha vida e quando vim fazer já era em nível de pós-graduação. Acho que um ator pode aprender tudo de forma autodidata. Mas os cursos diminuem o tempo das descobertas. Uma coisa que você passa de três a quatro anos para descobrir, você pode aprender em um mês de curso. Essa é a vantagem. Em umtempo de rapidez da informação, isso acaba se tornando necessário. Quem faz teatro na cidade do Recife tem de ser múltiplo também. Tem que entender de figurino, de maquiagem, de cenografia, de direção. O conselho que eu daria para os jovens atores é que busquem uma experiência múltipla em todas essas áreas. Inclusive, quando eu vou selecionar atores gosto de dar um curso antes. Acho que é uma forma de identificar bons atores.
É preciso ir para o eixo Rio-São Paulo para brilhar?
Muitos fazem teatro buscando a visibilidade na televisão. É uma outra coisa. Estão buscando a possibilidade de virem a ser globais. Não tenho nada contra isso. Gente é para brilhar mesmo. Para quem quer teatro, os festivais estão oferecendo a oportunidade de dar um giro pelo país, de ser visto pelas pessoas de lugares diferentes. No nosso caso, já tivemos temporadas em Portugal, no Rio, em Porto Alegre.
Dá para viver de teatro?
Eu posso ser considerado uma exceção porque vivo de teatro. Basicamente com o meu salário de professor.Mas acho que um caminho interessante seria que os atores se agrupassem mais para conseguir espaços. Unidos, fica mais fácil ir atrás de investimentos de órgãos públicos e empresas, que é o que já está acontecendo no Sul do país, onde os governos municipais estão bancando projetos que são pensados para o longo prazo. Acho que precisamos de pessoas empreendedoras no teatro como a Paula de Renor (responsável pela transformação do armazém 14 em teatro). Dar cursos e oficinas sobre história do teatro também é outra alternativa.

O Realejo, Grupo Bagaceira (CE)

O Grupo Bagaceira participou do Festival Recife do Teatro Nacional com as montagens O realejo e O engodo (não pude assistir a essa última). A cia, que conta com cinco anos de estrada, já esteve em Recife encenando Sonho de uma noite de verão. Dessa vez, dividiu a opinião com o teatro de bonecos O realejo.

Houve quem dissesse que saiu diabético de tão “água com açúcar” era o espetáculo. Comentário injusto. De certa forma, a peça destoava um pouco das outras montagens exibidas no festival, de forte cunho político. Mas não era de todo melodrama. Havia uma crítica (embora sutil) ao coronelismo e sua exploração, que leva um casal de retirantes prometerem a pequena Marina ao patrão, antes mesmo dela nascer.

Marina se apaixona pelo vendedor de maçãs, Cássio, e as trágicas conseqüências desse amor proibido são contadas através do enigmático tocador de realejo que prevê o destino de todos. O mais interessante dessa montagem é a manipulação dos bonecos. De acordo com o diretor Yuri Yamamoto, não há conhecimento de outra cia que tenha encenado de tal forma. Os bonecos são costurados no corpo dos atores. Apenas as expressões faciais são do próprio intérprete. As demais são feitas com um movimento do corpo bem específico, para mexer com as pernas e braços do boneco. O resultado é um espetáculo delicado e encantador.

Sonho de um homem ridículo (SP)


Baseado no conto homônimo do russo Fiódor Dostoievski, Sonho de um homem ridículo traz um niilista solitário resolvido ao suicídio, mas desiste de se matar depois de enxotar uma garota que lhe pede ajuda. Em vez de atirar contra a cabeça, adormece e sonha com a própria morte, o seu enterro e com uma espécie de paraíso (ou vida após a morte).

A história se passa na São Petersburgo do século XIX e é carregada de questões filosóficas sobre a origem da decadência humana, para Dostoi, com base na mentira. O personagem é vivido por Celso Frateschi que assina ainda a dramaturgia. Os 35 anos de carreira justificam a atuação competente do ator. Nas divagações sobre o local para o qual é levado após sua “morte”, ele consegue fazer com que o expectador imagine como é aquele lugar a partir da sua convincente descrição. Tal como se estivéssemos lendo o próprio conto de Dostoievski. Assim, o monólogo prende a atenção até o fim do espetáculo, a ponto de não sentirmos o tempo passar e embarcarmos na viagem junto com o personagem.

Por Elise, Cia Espanca! (MG)

Minas nos presenteia sempre com bons espetáculos em oportunidades como o festival de teatro. O Galpão é um dos grupos mais esperados. Eis que de lá surge uma outra cia, embora com pouco mais de um ano de formação, nos trouxe uma encenação madura em todos os aspectos: atuação, direção, iluminação e, principalmente, dramaturgia.

Por Elise, da Cia Espanca!, encanta pela simplicidade dos seus personagens, extraindo poesia de situações banais do nosso dia-a-dia. Uma mulher plantou um pé de abacate na sua casa e ele cresceu tanto que ela vive em pânico com medo que abacates caiam sobre ela. “Cuidado com o que planta nesse mundo!”, adverte.

Risos tímidos na platéia e logo em seguida a reflexão, que encontra uma moral distinta em cada expectador. E assim o espetáculo é entrecortado por frases, a princípio ingênuas e cômicas (o que é reforçado pelos olhos esbugalhados da atriz Grace Passô, a protagonista), mas que nos tocam profundamente. Difícil sair do espetáculo sem repensar as nossas vidas.

Cia. Armazém (RJ)

A Armazém Companhia de Teatro (RJ) esteve por aqui trazendo dois espetáculos: A caminho de casa e Pessoas invisíveis, ambas com duas apresentações no Festival Recife do Teatro Nacional. Duas coisas me impressionaram: a cenografia e o elenco afinadíssimo da cia.

São superproduções teatrais, no melhor sentido. A iluminação competente e as projeções de imagens levam o público para dentro do espetáculo. Sem falar nos elementos que compõem a cena. Em A caminho de casa, oito carros são colocados no palco, no conturbado engarrafamento que marca o encontro das personagens na primeira parte. Já em Pessoas Invisíveis, ficamos diante de uma cidade cenográfica, coisa rara de se vê em teatro (imaginem o trabalho para transportar todas essas coisas, hein?).

A versatilidade dos atores é extraordinária. Em Pessoas Invisíveis, por exemplo, são quase quarenta personagens para um elenco de nove atores. A fragilidade do espetáculo, porém, está no texto. Era um espetáculo cansativo, não apenas por conta das duas horas de espetáculo, algo quase impensável nas artes cênicas.

Os personagens são tirados de várias grafic novels e gibis do norte-americano Will Eisner. Falta, no entanto, uma "edição" desse material. Ao mesmo tempo em que essa profusão de histórias leva os atores ao limite da interpretação, fragmenta a emoção do público que acaba perdendo o interesse. A idéia que se tem assistindo aos dois espetáculos é de que cada um deles renderia, pelo menos, três boas montagens.

quinta-feira, novembro 24, 2005

O Recife imita o Festival

O Festival Recife do Teatro Nacional encerra a sua programação nesse fim de semana, mas vale lembrar a abertura um tanto inusitada do evento. Desde a quinta-feira (17/11) da semana passada, quando começou o festival, o Recife foi tomado por uma série de manifestos estudantis devido ao aumento das passagens de ônibus, ocorrido no domingo (13/11), na calada do feriadão.
Deram uma trégua ontem, graças a um juiz que suspendeu o aumento da tarifa. Porém, no dia da abertura, os estudantes bloquearam várias ruas do centro da cidade, inclusive as que davam acesso ao Teatro Santa Isabel, local onde seria exibido o primeiro espetáculo do festival. Foi o maior quebra-quebra de ônibus (o vandalismo é uma lástima, mas parece que só assim se consegue chamar a atenção das autoridades) e ao atingirem uma das principais vias do Recife, o protesto provocou um quilométrico engarrafamento, em uma espécie de efeito dominó, no qual até bairros distantes do foco das manifestações, como Boa Viagem, tiveram problemas no fluxo do trânsito.

Para quem está se perguntando o que tem a ver o protesto com o festival, garanto que há outras conexões além do simples atraso na cerimônia de abertura. A primeira delas foi a data, justamente no primeiro dia do festival, cujo tema era o Homem Comum e o Homem Político. Tudo bem. A maior parte da aglomeração estudantil estava alheia ao festival e nem sabia da existência desse tema (o que é uma pena). Mas foi uma intrigante coincidência, não?

Até o espetáculo da companhia carioca Armazém, "A caminho de casa", parecia ironizar o tumulto que ainda ecoava nas proximidades do teatro. Imaginem que a peça começava com uma explosão de um ônibus! A platéia gargalhou. E para completar o quadro, a primeira parte mostra a convivência forçada de oito pessoas no engarrafamento gerado pelo ônibus explodido. Será que essa história aconteceu em algum ponto da cidade? Assim como a arte imita a vida, o Recife escolheu imitar o Festival.