Qual ator pernambucano não gostaria de trabalhar com Antônio Cadengue? Diretor da Companhia Teatro de Seraphim, que neste ano completou quinze anos de atividades, Cadengue, 51 anos, é um dos encenadores de destaque no cenário do teatro nacional. Em quase trinta anos de trabalho, tem em seu currículo mais de quarenta montagens. Mas o teatro entrou quase que por acaso em sua vida. O primeiro contato com a arte do tablado foi através de uma prima e uma tia que faziam teatro amador em Lajedo, interior de Pernambuco. No entanto, não foi daí que surgiu o seu interesse. As suas atividades como diretor de teatro começaram aos 21 anos, na época em que era estudante universitário de psicologia, em 1975. Como não tinha mais dinheiro para bancar a graduação, propôs dar aulas de teatro para uma escola secundária pertencente à faculdade. Até aquele momento, só conhecia teatro como espectador e através de um único livro teórico: Em busca do teatro pobre. As peças feitas na faculdade e na escola ganharam repercussão. Assim, José Mário Austregésilo o convidou para substituí-lo nas aulas de teatro, nas turmas de jornalismo da Universidade Católica. Cadengue ensinou lá durante três anos. Foi convidado para fazer pós-graduações em teatro em várias instituições do país, terminando o seu doutorado em 91, na USP. Professor da UFPE desde 81, foi um dos coordenadores do antigo Curso de Formação de Atores. Veja a seguir entrevista concedida a mim para o caderno Guia de Profissões (publicada no Diário de Pernambuco, em 05/12/2005). Cadengue falou sobre a formação da Companhia Teatro de Seraphim (e não Companhia de Teatro Seraphim, como costuma corrigir) e a condição do ator em Pernambuco.
Como foram esses quinze anos da Cia Teatro de Seraphim?
A companhia começou em 90, com a montagem de Heliogábalo e eu, com a direção de George Moura. Na época, eu estava montando com os alunos do curso de atores da Fundação Joaquim Nabuco, Em nome do desejo, que depois seria integrada à Cia Teatro de Seraphim devido à repercussão da peça. O nome da companhia está ligado ao autor dos textos desses dois espetáculos, que é o Trevisan. Além disso, Heliogábalo é baseado no pensamento de Artaud. E por isso colocamos Companhia Teatro de Seraphim, nome de um texto de Artaud. O nome funcionou. Esse tempo todo o que uniu o grupo foi o espírito de trazer boas produções para o Recife. Fazíamos quase três peças por ano. Mas desde 2000, ficou muito difícil montar um espetáculo.
O bom ator é aquele que tem experiência?
Um bom ator, de uma forma geral, é aquele que tem um bom preparo vocal, corporal, de dança, além de um domínio das técnicas de base da interpretação. Mas nós temos procurado investir em um corpo de atores formados por veteranos e por jovens também. É bom misturar porque as pessoas crescem. O bom para mim é aquele que tenha disponibilidade para aprender e se tornar um bom profissional.
E o talento?
Eu tenho dúvidas quanto aos talentos. Acho que os talentos existem, mas se ele não for trabalhado, se as pessoas não se lançarem na ousadia e na aventura da experimentação, ele fracassa. Tem que investir na formação. E essa formação é um pouco de tudo. É através do cinema, dos livros... Porque os atores são seres que devem destinar boa parte da sua sensibilidade para ser reeducado. Às vezes, a pessoa não tem o talento, mas sabe canalizar o seu potencial. O teatro não precisa só de gente brilhante. Ele é feito por pessoas comuns. Imagine se existisse uma Fernanda Montenegro em cada canto do país? Ela se torna uma paradigma para todo mundo, mas não é para mim o melhor tipo de artista. Gosto de pessoas que tenham sensibilidade para chorar com a chegada das estrelas... Essas coisas simples da vida.
Como você avalia a questão da formação do ator? Ele precisa de um bom curso de teatro?
Eu sou um caso muito especial porque nunca estudei teatro na minha vida e quando vim fazer já era em nível de pós-graduação. Acho que um ator pode aprender tudo de forma autodidata. Mas os cursos diminuem o tempo das descobertas. Uma coisa que você passa de três a quatro anos para descobrir, você pode aprender em um mês de curso. Essa é a vantagem. Em umtempo de rapidez da informação, isso acaba se tornando necessário. Quem faz teatro na cidade do Recife tem de ser múltiplo também. Tem que entender de figurino, de maquiagem, de cenografia, de direção. O conselho que eu daria para os jovens atores é que busquem uma experiência múltipla em todas essas áreas. Inclusive, quando eu vou selecionar atores gosto de dar um curso antes. Acho que é uma forma de identificar bons atores.
É preciso ir para o eixo Rio-São Paulo para brilhar?
Muitos fazem teatro buscando a visibilidade na televisão. É uma outra coisa. Estão buscando a possibilidade de virem a ser globais. Não tenho nada contra isso. Gente é para brilhar mesmo. Para quem quer teatro, os festivais estão oferecendo a oportunidade de dar um giro pelo país, de ser visto pelas pessoas de lugares diferentes. No nosso caso, já tivemos temporadas em Portugal, no Rio, em Porto Alegre.
Dá para viver de teatro?
Eu posso ser considerado uma exceção porque vivo de teatro. Basicamente com o meu salário de professor.Mas acho que um caminho interessante seria que os atores se agrupassem mais para conseguir espaços. Unidos, fica mais fácil ir atrás de investimentos de órgãos públicos e empresas, que é o que já está acontecendo no Sul do país, onde os governos municipais estão bancando projetos que são pensados para o longo prazo. Acho que precisamos de pessoas empreendedoras no teatro como a Paula de Renor (responsável pela transformação do armazém 14 em teatro). Dar cursos e oficinas sobre história do teatro também é outra alternativa.